Instituto Felipe Kumamoto - A importância do terceiro setor
Sexta, 24 de Outubro de 2014   
   
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06.05.2008

A importância do terceiro setor

Stephen Kanitz *

"Se o próximo governo não conseguir corresponder às expectativas de melhoria no social, arrisco fazer uma estranha previsão. Seguramente veremos surgir um novo partido político, o Partido do Terceiro Setor (P3S), do qual farei questão de ser um dos primeiros filiados."

Em março perguntamos aos líderes sociais das 400 maiores entidades do Brasil, que transitam pelo site www.filantropia.org: "Qual candidato à Presidência daria maior atenção ao terceiro setor?". Mais de 1.600 líderes responderam à questão. Lula recebeu 49% dos votos dos gestores sociais, indicando já em maio de 2002 que o setor havia optado por ele. Como tudo em internet, os resultados estavam disponíveis para todos os políticos interessados no terceiro setor, mas pelo jeito ninguém deu bola.

As 400 maiores entidades do país auxiliam 13,4 milhões de pessoas diretamente e muito mais do que isso indiretamente. É muito voto! Sempre acreditei que um dia o setor seria uma força política para garantir a eleição de qualquer candidato, hoje e no futuro. É um setor que tem garra, que tem acabativa (qualidade de transformar planos em realidade), que busca o que precisa com unhas e dentes, que não fica no discurso fácil da academia e da política. Se algum cientista político está tentando descobrir onde errou, por que Lula obteve tantos mais votos que o próprio PT, posso garantir que o terceiro setor teve enorme influência nesta eleição.

A primeira vez que Antoninho Marmo Trevisan, assessor de Lula e membro do conselho do nosso www.filantropia.org, ouviu que seu candidato tinha chance de ganhar as eleições já no primeiro turno foi exatamente seis meses atrás. O terceiro setor daqui para diante será um marco de referência para todo marqueteiro político.

O erro de José Serra foi concentrar-se no econômico, talvez por ser economista. Lula deveria ter dado graças a Deus por não ter um Ph.D. Por isso, ele observou a realidade brasileira, e não os livros de economia, para saber que a questão seria o social, a opção que tomou em sua campanha. Um governo que acabou com a inflação e imprimiu um crescimento do PIB de 9% ao ano não tem muito mais a oferecer à população na área econômica.

Dezenas de estudantes de economia me enviaram e-mails criticando o artigo sobre o crescimento do PIB (VEJA, 18 de setembro). Pedi que me enviassem as críticas pelo correio, para que o papel, o envelope e o selo aumentassem em mais 1% o crescimento de nosso PIB, segundo os critérios que eles tanto defendem.

Desde 1995 solicitamos mensalmente aos líderes das 400 maiores entidades do país que avaliem o governo na área social. Em 1999, 78% consideraram o governo Fernando Henrique Cardoso ruim ou péssimo. Em setembro de 2002, somente 17% o viam como excelente e bom. A sorte já estava selada. Fernando Henrique ignorou o terceiro setor, deixou o social mais nas mãos de dona Ruth Cardoso, sem verbas nem apoio. Ela teve de se esforçar em tempo integral para angariar fundos para a comunidade, pedindo verbas a empresários, num trabalho árduo de fund raising (captação de recursos junto a empresas e pessoas físicas que resulta em doações a entidades assistenciais).

As entidades se sentiam ameaçadas quando dona Ruth visitava uma cidade. No dia seguinte, era quase certo que algum empresário local cortaria a verba sistemática de ajuda de vários anos. "Dona Mariazinha, lamento informar que neste ano não vamos poder colaborar. Nosso apoio foi para ajudar outra causa que eu não tive como negar." E não poderia mesmo. Afinal, era a mulher do presidente. Até eu recebi um telefonema desses, e o serviço Doe Bens para uma Entidade, do www.filantropia.org, continua sem patrocinador.

As 400 maiores entidades se sentem machucadas, abandonadas e usadas pelo governo e pelos políticos, que somente as procuram na semana anterior às eleições. Posso garantir que a força política do terceiro setor veio para ficar. Nenhum candidato no futuro ousará negligenciar o setor, que será muito influente nas eleições de 2006, 2010 e 2014, como o foi nesta eleição.

Se o próximo governo não conseguir corresponder às expectativas de melhoria no social, arrisco fazer uma estranha previsão. Seguramente veremos surgir um novo partido político, o Partido do Terceiro Setor (P3S), do qual farei questão de ser um dos primeiros filiados.

Um partido que será para milhares de entidades sociais, e para os realmente necessitados e excluídos, o que o PT foi com tanto sucesso para os sindicatos e trabalhadores brasileiros: uma voz ativa.



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